George Kiszely

     Nascido em Budapeste, na Hungria, em 25 de novembro de 1930, filho de Dezso e Piroska Kiszely, ele contador, ela, pintora e poetisa. Cresceu em meio a artistas e apreciadores de arte e quando seus pais residiram em Recife, no Brasil, a carreira de pintora e professora de artes de sua mãe floresceu.

     George iniciou seus estudos de violino aos 14 anos, na Academia Franz Liszt de Budapeste, onde foi aluno de Árpad Vig e Ferenc Gábriel, mas não conseguiu concluir a graduação por causa da intensificação da Segunda Guerra Mundial. Como sua família tinha parentes no interior da Hungria, Dezso procurou escondê-los lá. Dessa época data uma história muito impactante: seus pais consideraram seguro retornar à capital, mas por conta da ocupação russa, a família de George o outras 2 ou 3 famílias se viram obrigadas a se esconder num porão. Eles foram descobertos por um soldado russo embriagado, que com uma arma em punho, ameaçou todos de morte. Entretanto, ao ver George, ainda garoto, tremendo abraçado a seu violino, balbuciou algo ininteligível e George tomou o violino e tocou “Olhos Negros”, cantiga popular russa. O soldado abaixou a arma e pôs-se a chorar, saiu do recinto, deixando um tablete de açúcar, provavelmente de sua provisão pessoal. Sua família se exilou na Suíça em 1946 e ele passou a estudar com o maestro Georg Kertész.

     Em 1947 a família toda veio para o Brasil, onde já tinham parentes e seus professores de então foram Bela Móri e Bóris Jankov, ambos profissionais de destaque. Os primeiros anos foram difíceis financeiramente, embora seu desenvolvimento tenha sido rápido e Bela Móri intercedeu a seu favor para que fosse admitido no conjunto musical da Rádio Tupi, tocando violino. Por conta de uma queda que provocou uma fratura no pulso esquerdo, passou a se dedicar mais intensamente à viola, já que as posições altas do violino necessitavam de mais tempo de restabelecimento. Ele jamais abandonou o violino, porém começou a se interessar genuinamente pela sonoridade e possibilidades do repertório para viola. Graduou-se em 1960 como violinista no Conservatório Alexandre Levy, em SP, obtendo medalha de ouro. Sempre teve grande facilidade para se apresentar em público e seguiu participando de concursos até seus 58 anos, pois considerava uma excelente forma de se manter em forma e estudando.

     Em 1964 ganhou uma bolsa para estudar na Academia Santa Cecília de Roma, na Itália, quando já ocupava o cargo de primeira viola da Orquestra do Teatro do Rio de Janeiro. Os recursos para a bolsa, entretanto, foram misteriosamente subtraídos e por conta disso, para conseguir se sustentar e à esposa, Clélia Ognibene,  obteve permissão para trabalhar e integrou a Orquestra do Teatro de Ópera de Roma, a Orquestra das Termas de Caracalla e outros conjuntos na Itália.

     

 

     

 

   

    A partir de 1968, já de volta ao Brasil, tornou-se professor no Instituto Villa-Lobos da FEFIERJ (futura UFRJ), cargo que ocupou até 1975. Participou como professor em inúmeros festivais. Em 1973, certificou-se professor pela Sociedade Brasileira de Educação Musical e tornou-se referência como professor de História da Música, História das Artes e Estética. A atividade de docente seria levada até o fim de sua vida e nos últimos anos, após sua aposentadoria no Teatro Municipal de SP, lecionou na Escola Municipal de Artes Maestro Fêgo Camargo, na cidade de Taubaté, até seu falecimento, em 2010. Ele fundou também a 1ª orquestra jovem da cidade, entre os anos de 1997 e 1998.

     Foi vencedor de muitos concursos, entre eles o prêmio “hors concours” para solista da Orquestra Sinfônica Brasileira (RJ, 1960), 2º lugar no concurso para violinistas promovido pela Comissão de Cultura do Estado de São Paulo (SP, 1962), 1º lugar no Concurso de Viola promovido pela Rádio MEC (Ministério da Educação e Cultura, RJ, cujo pódio foi ocupado pela “trinca húngara”; Bela Mori (3º lugar), Perez Dworeck (2º lugar) e George Kiszely (1º lugar).

 

     Ocupou o cargo de primeira viola na Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo, na Orquestra Sinfônica Municipal de SP e na Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Também exerceu intensa atividade camerística , integrando o Quarteto do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Quarteto de Cordas da Cidade de SP, Quarteto Martins Fontes (Santos) e Opus Quinteto da Cidade de Taubaté.

 

     Deixou uma extensa produção fonográfica. O 1º disco foi como violista gravando de Johann-Christian Bach Concerto em dó menor (completo), e peças breves de Faurè, Debussy e Ravel (Continental, 1956), Cantos e Danças da Renascença (CBS, 1963), Do Tempo do Império (Festa, 1964), Concerto Barroco vol. I e II (CBS 1966-1968), Música na Corte Imperial (série vol. 1, 2 e 3 Angel e MEC, 1968), Quartetos de Villa-Lobos nº 1 e 17 (Caravela, 1968), Brasiliana de Edino Krieger (obra dedicada a ele, CBS, 1963), Mestres da Música Brasileira (compilação de gravações anteriores de vários compositores, CBS, 1969), Quartetos de Villa-Lobos nº 16 (Museu VL, 1966-1975), Quarteto nº1 de Alberto Nepomuceno (Pro Memus, 1960), Osvaldo Lacerda Quarteto nº2 (MIS, 1979), Brasiliana de E. Krieger, com Orquestra de Câmara de Blumenau (Polygram-Bosch, 1986).

 

     George deixou uma impressão indelével nos colegas, amigos e alunos: a do artista vivendo inteiramente para a música, a paixão pelos dois instrumentos, o bom gosto musical, a sonoridade arrebatadora, a versatilidade nos estilos, a gratidão pelo bem estar conquistado, a carreira musical de sucesso, a companhia e amizade dos colegas de quem ele se considerava fã! George era também um apaixonado pelo Brasil e por sua cultura popular. Diante do sotaque estrangeiro incontornável, do gênero trocado de algumas palavras, ao ser indagado sobre sua nacionalidade respondia orgulhoso: “sou húngaro-baiano!”

* Texto escrito a partir da biografia produzida por sua segunda esposa, Yara Bianchi de Miranda

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Quarteto de Cordas da Cidade de SP. Da esquerda para direita: Maria Vischnia, Ariane Pfizter, George Kiszely e Zigmunt Kubala

 

Bela Móri

     Nasceu  em 14 de junho de 1912, em Budapeste, na Hungria. Ficou órfão ainda criança e foi acolhido por Jeno Vida em seu orfanato criado especialmente para crianças judias, na mesma cidade. Foi também de Jeno que ganhou seu primeiro violino e o estímulo para estudar música, como outras crianças da instituição. Jeno foi avô de Edith Pereny,  violista da OSM e bisavô de Betina Stegmann, que é atualmente primeiro violino do Quarteto de Cordas da Cidade de SP. Ele e grande parte de sua família foram enviados para Auschwitz, de onde infelizmente jamais retornariam.

       Bela estudou viola na Academia Real de Budapeste e dessa época data uma das interessantes histórias de sua vida: um dia ao fazer a viagem de trem que o levaria ao conservatório, um senhor se sentou ao seu lado e parecia muito interessado na partitura que ele revisava para uma prova que faria naquele mesmo dia. Incomodado, acabou mudando de lugar, pois não conseguia se concentrar. Qual não foi sua surpresa ao entrar na sala de audição e constatar que na banca estava o senhor do trem e ele era nada menos que o próprio Béla Bartók?

     Assim como tantos irmãos judeus, Bela Móri imigrou para o Brasil para fugir da perseguição na 2ª Guerra Mundial e se estabeleceu na cidade de São Paulo, onde atuou intensamente como violista e professor, dando aulas também no Conservatório de Tatuí na década de 70. Produziu transcrições e edições com sugestões de dedilhados e uma proposta técnica especialmente pensada para violistas que como ele, tivessem estatura e mãos pequenas. 

      Bela Móri foi primeira viola da OSM - Orquestra Sinfônica Municipal de SP de 1956 a 1982 e era conhecido por sua bela sonoridade e também pelo senso de humor peculiar e irreverente. Uma vez, após o famoso solo de viola do ballet Gisele, um estudante foi cumprimentá-lo, dizendo que estudava viola. Ele virou o pescoço do rapaz e não identificando a marca comum nos violinistas e violistas respondeu "não estuda, não", deu-lhe as costas e foi embora. 

    Apesar da infância difícil e da imigração por falta de alternativa, os que o conheceram afirmam ter sido uma pessoa extremamente alegre e eternamente grato à Jeno Vida. Bela Móri faleceu no ano de 2006, na cidade de São Paulo.

* Cortesia do Naipe de Violas da Orquestra Sinfônica Municipal de SP - OSM

Naipe de Violas da OSM - década de 80. Em pé - da esquerda para direita: Marcos Fukuda, Klaus Hellner, Akira Terazaki, Toshio Furihata, Edith Pereny, Gianni Visoná, Giovanni Paolo Momo.
Sentados - da esquerda para direita: Adriana Pace, Perez Dworecki, Renata Braunwieser, Bela Mori, Yoshitame Fukuda. Foto tirada durante uma confraternização em 27/10/1983.

 
 

      Pérez Dworecki

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     Nasceu em 08 de dezembro de 1920, na pequena aldeia de Tamási, na Hungria. Seu nome de batismo era Sándor Herzfeld, de origem alemã e seus pais eram judeus. Sua mãe, Ilona, cuidava dos afazeres do lar e seu pai, Armin, era sapateiro e a infância de Sándor foi pobre e difícil. Armin, entretanto, era um grande apreciador de música e trocou um par de sapatos por um violino para o pequeno Perez, que logo começou a ter aulas com um cigano de uma das orquestras ciganas que se apresentavam em sua aldeia. O instrumento do cigano, no entanto, era o címbalo e Perez tornou-se autodidata.

     No início dos anos 40 ingressou no Conservatório Franz Liszt em Budapeste para estudar violino e viola. Dentre seus renomados professores destacam-se Léo Weiner (1885-1960), Zoltán Kodály (1882-1967) e Sándor Végh (1912-1997).

     Perez perdeu seus pais num dos campos de extermínio da II Guerra Mundial e decidiu mudar de país. Com sua companheira Katalin, partiu para a Áustria a pé, mas ficaram por lá por apenas alguns meses. Em seguida ficaram algum tempo na cidade de Cadorna, na Itália, onde compraram os passaportes de um casal polonês, Perez e Sonia Dworecki. Em 1947, decidiram imigrar para o Paraguai, mas passando pelo Brasil, decidiram se estabelecer aqui, por conta das muitas oportunidades de trabalho. E efetivamente, com pouquíssimo tempo de permanência no país, ele foi contratado como primeiro violista da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo, cargo que ocupou por 30 anos, de 1953 a 1983.

     

     

     

     Na década de 50 Perez trabalhou intensamente como violista nas orquestras das Rádios Gazeta, Tupi, TV Record, TV Cultura e da extinta TV Excelsior, tendo a oportunidade de travar conhecimento com importantes compositores e maestros, como Radamés Gnatalli, Villa- Lobos, César Guerra-Peixe e Henrique Simonetti e Camargo Guarnieri.

     A partir desses contatos surgiram importantes obras dedicadas ao violista Dworecki, como o Concerto para viola e orquestra e a Sonata para viola e piano do compositor Radamés Gnattali e as Três peças para viola e piano, de César Guerra Peixe. Perez também participou de inúmeras gravações com artistas da música popular brasileira como Agostinho dos Santos, Maysa, Gilberto Gil, Sérgio Bandeira, entre outros. Exerceu intensa atividade acadêmica, tendo sido professor de viola por 15 anos (1972-1987) na Universidade de São Paulo (USP) e participando também dos festivais de música de Curitiba e Londrina e da Bienal Internacional de Música na Escola de Comunicação e Artes da USP .

     Detentor de uma extensa discografia, teve seu inegável mérito reconhecido por meio das várias obras dedicadas a ele e foi um dos grandes responsáveis pela disseminação da viola no Brasil. Foi também importante divulgador da obra dos compositores brasileiros no cenário nacional e internacional.

 

 

Texto escrito a partir da dissertação de mestrado de Hellen Mizael

Ricardo Kubala

       Íntegro, comprometido, solícito, gentil, divertido, honesto, grande amigo, humanista. Esses são alguns dos adjetivos que ouvimos e lemos recentemente para descrever nosso colega Ricardo Kubala, que nos deixou precocemente no dia 10/04/2021, vítima de um aneurisma cerebral, aos 53 anos de idade. Foram tantos os depoimentos de pessoas chocadas e entristecidas que seria possível afirmar seguramente que Ricardo foi uma unanimidade entre os amigos e colegas de profissão, sinônimo de integridade e afeto.

        Nasceu em 26 de outubro de 1968, no Rio de Janeiro, em uma família de músicos. Seu pai, o polonês Zygumnt Kubala, foi um importante violoncelista atuante no Brasil e sua mãe, Lina Kubala, era pianista.

     Ricardo se formou Bacharel pela Faculdade Santa Marcelina, realizou cursos de aperfeiçoamento na Academia da Filarmônica de Berlim (bolsa de estudos Sociedade Vitae) e na Escola Superior de Música de Karlsruhe (bolsa de estudos DAAD e CAPES), orientado respectivamente por Wilfried Strehle e Madeline Prager. Participou de vários festivais e cursos, ministrados, entre outros, por Alberto Lysy, Max Rostal, Norbert Brainin e Quarteto Chillingirian. Obteve os títulos de Mestre e Doutor em Música na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

         Atuou em diversos grupos de câmara premiados pela crítica, entre eles a Orquestra Solistas do Brasil (prêmio APCA de melhor conjunto de câmera) e Quarteto de Cordas de São José dos Campos (prêmio APCA de melhor conjunto de câmera). Como músico convidado da Orquestra de Câmara Solistas de Trondheim (Noruega), participou de gravação de CD pelo selo Deutsche Grammophon (prêmios Amadeus Music Award e Golden Harmony Award), além de ter se apresentado em vários países da Europa e Estados Unidos.

       Realizou várias estreias de obras do repertório brasileiro e contemporâneo para viola, resultado de parceria com diversos intérpretes e compositores. Como membro do Núcleo Hespérides, que se dedica à pesquisa e divulgação da música das Américas, tomou parte de gravação do CD “Sons das Américas” (selo SESC).

      Foi professor de música de câmara, na Faculdade Santa Marcelina, e de viola, na Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto. Lecionou também em vários festivais, como os de Campos de Jordão, Londrina, Pelotas e Gramado, e ministrado master classes em universidades na America Latina. Atualmente era professor de viola no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

        Grande apoiador e incentivador da Abrav, foi membro do Conselho Fiscal desde o Primeiro ENVIO, em 2015.    

     

 

 

 

 

 

 

 

      Para além do currículo impressionante, sua disponibilidade intelectual transcendia os limites do instrumento. Nas palavras de seu amigo Luiz Amato "ele era dono do seu tempo e do tempo dos seus amigos, levava tudo para o seu fluxo de tempo, para dentro de sua percepção ultra, super aguçada, família, amigos, inimigos, cachorro, casa, viola italiana, livros, política.”

      Além de excelente professor, para seus alunos foi figura de apoio e referência em todos os aspectos da vida profissional e muitas vezes também no plano pessoal. Extremamente comprometido, suas aulas frequentemente extrapolavam os horários determinados e seu principal alicerce era a busca incessante do som bonito.

     O desafio para os que ficam após sua partida, alunos, amigos, família, é de fazer surgir algum significado nessa perda irreparável. O sentimento geral é que devemos ser capazes de fazer jus à sua existência e lutar para perpetuar seus ideais éticos, estéticos e intelectuais, permitindo que sua chama não se extinga jamais. Esperamos ser capazes.

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